A Paixão pelo seu Próprio
Amor
"E viveram felizes para sempre..."
Este sonho tem sido eliminado de suas fantasias? Você acredita
que, com o tempo, a paixão acaba?É verdade, após
um início fascinante e fulminante, as relações
se desenvolvem rumo a perspectivas menos calorosas. Surge, por detrás
do amante, uma pessoa comum. Surgem, por trás das qualidades,
os limites inerentes à própria condição
humana. Pode ser o início de uma encruzilhada: descobrir e desenvolver
o amor que existe entre o casal ou, simplesmente, desistir da relação.
Mas há uma armadilha sob esta perspectiva, sobre o fim da paixão:
que uma relação duradoura é ausente de desejos,
fantasias e descobertas. Muitos casais perdem o fascínio do convívio
a dois por acreditarem e se submeterem à rotina, baseada apenas
em sentimentos de amizade, cumplicidade e companheirismo.
É claro que estes sentimentos são nobres e vitais. O problema
é que acreditamos que todo aquele antigo deleite passa a ser
definitivamente substituído por sentimentos menos apimentados.
E, como é o que falta e não o que sobra que incomoda,
buscamos fora o que poderia ser encontrado dentro da relação.
É quando surge a ameaça do abandono ou mesmo da traição.
Bem, se uma relação não oferece as condições
necessárias para se desenvolver, é claro que ela pode
e deve ser abandonada. Não adianta insistir em colher de uma
árvore que não oferece mais frutos. Infelizmente, algumas
relações não dão certo. Elas perdem o sentido.
Naturalmente, acabam.
Mas não só as relações ruins e sem sentido
estão atualmente se esmorecendo. As boas relações,
encontros verdadeiros e gratificantes também estão se
esgotando: não por falta de sentido, mas de clareza e perseverança.
Infelizmente, ao invés de investir, ser sincero e tentar melhorar,
somos inconscientemente condicionados a sabotar relações.
Exigimos que a semente torne-se planta madura da noite para o dia. Este
é o mecanismo da auto-sabotagem, desejar saborear o fruto sem
antes criar as condições para que ele amadureça.
Queremos ser felizes sem mesmo desenvolver as possibilidades básicas
para a construção de uma vida em comum.
Na verdade, o segredo de uma relação feliz e duradoura
é descobrir que a paixão não acaba - ela se transforma.
À medida que os parceiros se afinam como casal, superando os
próprios limites e desenvolvendo um convívio mais consciente,
a paixão ressurge com um apetite ainda mais voraz. Afinal, ela
agora é profunda e duradoura; mais presente, autêntica
e estimulante. Não depende só de novidades e fantasias
para existir. Ela se fundamenta no combustível básico
do prazer: intimidade.
Não há nada mais propício à exploração
dos desejos que a intimidade baseada em sinceridade, comunicação
e confiança mútua. Ela é a fonte de bem-estar que
nos permite ser espontâneos, se sentir à vontade para explorar
as faces mais secretas do convívio a dois.
É claro que uma nova e misteriosa paixão estimula os nossos
mais inquietos desejos. Mas também não há nada
mais glorioso que se apaixonar pelo seu próprio amor. Afinal,
é simplesmente sublime saborear a mais intocada intimidade de
alguém que compartilha de seus mais profundos segredos.
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Publicado no "Estado de Minas", 03/10/2000 - http://www.castellani.psc.br
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